Empresa de mineração que mais cresceu no mundo nos últimos 10 anos é também quem fará o maior investimento do setor em 2010
Chiara QuintãoDe mineradora de ferro, com alguma atuação em alumínio, a Vale, quarta colocada do prêmio Destaque Agência Estado Empresas da Década, tornou-se uma companhia global e diversificada nos últimos dez anos, beneficiando-se enormemente do crescimento da China. "Há uma década, a Vale era uma empresa exclusivamente brasileira, internacional pelo comércio com os outros países, mas não global. Somente a área de não-ferrosos hoje é maior do que a Vale era dez anos atrás", conta o presidente da companhia, Roger Agnelli.
A mudança de patamar conquistada no período foi resultado de uma boa dose de ousadia, da qualidade dos ativos da companhia e do trabalho do brasileiro, segundo Agnelli. Na última década, o crescimento orgânico foi o principal vetor para a expansão da empresa, embora a companhia tenha feito aquisições no segmento de minério e comprado a canadense Inco. Para a Vale, crescer organicamente continua sendo prioridade, mas aquisições "oportunísticas" poderão ocorrer, segundo o executivo. "Se tivermos chance de comprar alguma coisa a um preço convidativo que, em comparação aos projetos que temos, apresente retorno mais alto, vamos buscar. O negócio é criar valor", afirma Agnelli.
Na próxima década, o crescimento será baseado nos principais negócios da companhia - minério de ferro, níquel, fertilizantes, cobre e carvão. Os investimentos anunciados para 2010 somam US$ 12,9 bilhões. "A Vale tem sido por anos seguidos a empresa que mais investe em mineração. Este ano, por exemplo, o maior investimento da história do setor é a Vale que está fazendo. Estamos numa situação financeira, de mercado, que permite sonharmos em caminhar a passos largos", afirma Agnelli. Com exceção do segmento de caulim, a companhia não pretende sair de nenhuma de suas áreas de atuação.
Recentemente, a Vale vendeu seus ativos de alumínio e bauxita para a norueguesa Norsk Hydro, passando a deter participação de 22% do capital da Hydro. Há três anos, a Vale tentou comprar a Alcan, mas foi a Rio Tinto quem conseguiu bater o martelo. "A Alcan tinha acesso à energia barata, e não tinha como crescer em função da restrição das matérias-primas bauxita e alumina. A Norsk Hydro está na situação que a Alcan estava três anos atrás", diz. A dificuldade para a Vale se expandir em alumínio no Brasil -- o custo de energia -- será solucionada com o negócio com a Hydro, empresa que tem acesso a energia barata tanto na Noruega quanto na Arábia Saudita, de acordo com Agnelli.
Outra aquisição recente feita pela Vale foi a de 51% da BSG Resources, que detém concessões de minério de ferro em Simandou Sul (Zogota) e licenças de exploração em Simandou Norte (Blocos 1&2), na Guiné. "É o único ativo do mundo com qualidade semelhante à de Carajás", diz Agnelli. Os investimentos da Vale no projeto Simandou vão somar US$ 5 bilhões. A intenção da empresa é que o projeto comece a operar com mais agilidade do que outros no Brasil. O novo ativo vai contribuir para acelerar o crescimento da Vale. A meta de produção de minério (incluindo pelotas) é de 450 milhões de toneladas em 2014. No ano passado, a empresa produziu 237,9 milhões de toneladas de minério de ferro e 23,8 milhões de toneladas de pelotas.
Este ano, as negociações do reajuste de minério de ferro não resultaram na adoção de um preço de referência anual para os contratos (benchmark), mas na mudança para um sistema trimestral, com variação do preço calculada a partir da média das cotações no mercado à vista (spot) e que leva em conta a qualidade da matéria-prima. No mercado, existem apostas de que as altas dos preços à vista do minério poderão ser interrompidas no terceiro trimestre, o que, se confirmado, resultará em estabilidade ou até mesmo queda dos preços nos contratos a serem fechados para o quarto trimestre.
"Sempre tem gente achando alguma coisa para o futuro. Temos de viver o futuro, chegar lá. Para os próximos dois anos, certamente, o minério vai ter um mercado muito forte, mas a questão de oferta e procura é que vai regulá-lo", diz Agnelli, ressaltando que a demanda pela commodity ainda é superior à capacidade de produção da matéria-prima. A perspectiva do presidente da Vale é de continuidade de preços firmes de minério, podendo haver algum ajuste, segundo ele, devido às altas expressivas dos últimos 12 meses. "Mas a tendência ainda é de crescimento de demanda por minério."
Na última década, o impulso decorrente do consumo chinês de recursos naturais foi fundamental para a companhia. "A Vale foi beneficiada, assim como todas as empresas de recursos naturais, mas foi a que mais se despontou nesse processo, a que mais cresceu no mundo da mineração nos últimos dez anos", afirma o presidente da empresa. Atualmente, a China responde por quase metade da produção mundial de aço.
No atual cenário de aperto de oferta em relação à demanda, as siderúrgicas brasileiras estão aumentando suas apostas no setor de mineração. Segundo Agnelli, esse movimento não incomoda a Vale. "Nós temos os melhores ativos, as melhores reservas, as melhores minas. A siderurgia, por mais verticalizada que seja, vai precisar do minério da Vale", afirma o executivo. Nos últimos oito anos, a Vale tem apostado na estratégia de aumentar a produção de aço no Brasil, por meio de parceria com seus clientes. Uma desses projetos é a ThyssenKrupp Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), associação com a ThyssenKrupp, no Rio, que será inaugurada em julho, com capacidade de produção de cinco milhões de toneladas de placas de aço por ano.