18/06/2009
Bons dividendos e receita garantida pela venda de 100% da energia para a Eletropaulo são destaque
Wellington BahnemannEm tempos de crise econômica e apetite do mercado por ações defensivas, os investidores valorizaram ações que permitiram maior previsibilidade nos resultados e remuneração estável, garantindo à AES Tietê alcançar a segunda posição na premiação Destaque Agência Estado Empresas.
"A AES Tietê possui toda sua posição de energia contratada até 2015. Isso confere grande estabilidade no fluxo de caixa", explica o presidente do grupo AES Brasil, Britaldo Soares. Hoje, a geradora detém dez hidrelétricas em São Paulo e seis Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCH) em Minas Gerais, totalizando capacidade instalada de 2,65 mil MW.
O sucesso na estratégia da companhia está assentado no contrato de fornecimento com a distribuidora AES Eletropaulo, do mesmo grupo. Desde 2000, a concessionária paulista compra 100% da energia assegurada da AES Tietê. "Esse volume representa 25% da energia contratada pela AES Eletropaulo para atender à sua área de concessão", afirma Soares.
Além de assegurar um mercado cativo para a sua produção, o acordo também garante reajuste anual do preço da energia pelo IGP-M. Isso amplia as receitas da geradora e atrai investidores que buscam proteção da inflação neste cenário adverso da economia global.
Essas características explicam o porquê a AES Tietê foi tão bem avaliada pelo mercado nos critérios de volatilidade, pagamento de dividendos e de preço sobre o valor patrimonial das ações (P/VPA). Este último indicador mostra que o mercado acredita que a companhia tem um valor superior ao seu patrimônio.
O desempenho no mercado de capitais em 2008 também reforça a boa percepção. Mesmo com a expressiva queda de 41% no Ibovespa, as ações preferenciais da geradora subiram 0,9%, de acordo com dados da Economática, que considera em seus cálculos os dividendos e juros sobre capital pagos pela empresa. No mesmo período o Índice de Energia Elétrica (IEE) caiu 11,6%.
Apesar da situação estável, a AES Tietê terá desafios importantes para repetir o desempenho dos últimos anos. A começar pela manutenção do contrato com a AES Eletropaulo, já que o atual acordo vence em dezembro de 2015. Em 2003, as duas empresas assinaram um aditivo ao contrato, ampliando o compromisso até 2028.
Inicialmente, a operação foi aprovada pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Em 2005, porém, a Agência voltou atrás e argumentou que o aditivo era ilegal, por ferir o novo marco regulatório do setor elétrico, em vigor desde 2004. Pela nova lei, os contratos de compra e venda de energia dentro do mesmo grupo, chamados de self-dealing, são proibidos.
Hoje, a AES e a Aneel brigam na Justiça para resolver a questão. O problema é que a indefinição dificulta o planejamento da AES Tietê e da AES Eletropaulo. Se não houver uma solução para a questão nos próximos dois anos, a distribuidora deve declarar essa demanda no leilão de energia nova que contratará as necessidades do mercado cativo em 2016, denominado de A-5, que será realizado em 2011. Se não fizer isso, a Eletropaulo corre o risco de ficar descontratada em 25% do seu mercado.
A AES Tietê não poderá participar da licitação porque, pelos critérios do novo modelo do setor elétrico, a geração da empresa é classificada como "energia velha" (uma vez que suas usinas já são concedidas). "Teremos uma definição sobre a nossa estratégia entre este ano e 2010", diz Soares.
Outro desafio para a companhia será o cumprimento da exigência de ampliar em 15% (ou 400 MW) a capacidade instalada do seu parque gerador no Estado de São Paulo. Essa obrigação foi assumida pelo grupo AES ao adquirir a Cesp Tietê do governo paulista, em 1999, durante o processo de privatização.
O contrato firmado prevê que a meta fosse cumprida ao final de 2007, mas a geradora não realizou os investimentos. A AES Tietê alegou que, nesse meio tempo, as regras do setor elétrico mudaram e o excesso de oferta de gás, que viabilizaria investimentos em termelétricas, deixou de existir. Além disso, argumentou também que o Estado não dispõe de aproveitamentos hídricos de grande porte para alcançar os 400 MW.
Hoje, a companhia discute com o governo paulista algumas alternativas para o cumprimento da meta. Antes, a geradora olhava com atenção os projetos de PCH e térmicas a biomassa do bagaço da cana-de-açúcar. Mais recentemente, as usinas a gás natural voltaram a despertar o interesse com a perspectiva de expansão na oferta interna do insumo. "Os cenários mudaram e a tendência para o gás é diferente do que tínhamos no passado", justifica.
A retomada dos investimentos, no entanto, não comprometerá a política de dividendos da AES Tietê, segundo Soares. A empresa distribui 100% do lucro líquido aos acionistas. Em relação ao exercício de 2008, esse valor é de R$ 692,5 milhões. "Isso depende da carga de investimentos, mas a AES Tietê tem uma capacidade de endividamento não usada, que será aproveitada na execução de projetos de crescimento", afirma. Hoje, a relação dívida líquida/Ebitda da empresa é de 0,4 vez, uma das mais baixas do setor elétrico brasileiro.
A AES Tietê é subsidiária da Brasiliana, controlada pela AES e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Em 2007, o banco de fomento manifestou a intenção de vender sua fatia de 53,85% no capital total da holding, processo que está parado. "Do ponto de vista da AES, a manutenção da posição na Brasiliana é fundamental, é o nosso foco principal sempre e reforçamos o interesse de comprar a participação do banco", afirma.