18/06/2009

Mercado interno garante desempenho de vencedoras

Destaque Agência Estado Empresas elege as companhias que apresentaram melhor resultado ao investidor em 2008

Teresa Navarro

 

Suscetível a rumores e a especulações que imprimem à Bolsa alta volatilidade, sobretudo em tempos de crise, o mercado de capitais guarda uma relação estreita com a economia real. Com a intensificação da crise internacional, os investidores reduziram seu interesse pelas blue chips e passaram a buscar os papéis de empresas focadas no mercado interno, receita garantida e boas pagadoras de dividendos: as chamadas ações defensivas.

É o que mostra o ranking elaborado pela Agência Estado em parceria com a Economática, que premiou as companhias campeãs em retorno aos acionistas em 2008. Em sua nona edição, o ranking avaliou 199 empresas de capital aberto, com patrimônio líquido superior a R$ 10 milhões, a partir de sete critérios que levam em conta risco, liquidez, retorno, além de indicadores fundamentalistas. As dez primeiras colocadas recebem hoje o prêmio Destaque AE Empresas.

Nesta mudança de foco do investidor, ganharam importância os papéis de companhias do setor varejista e de concessão de serviços, como energia, telecomunicações e concessões rodoviárias. "O resultado do ranking reflete bem a nova tendência econômica após a crise mundial, com foco no mercado nacional. Em 2007, quando as commodities estavam em alta, tiveram destaque as exportadoras e o setor financeiro", afirma o presidente da Economática, Fernando Exel.

Tanto que a vencedora do prêmio foi a varejista Natura, com mais de 90% de seu faturamento obtido no mercado interno. O setor de energia foi o grande destaque, com cinco empresas entre as ganhadoras, sendo que a AES Tietê ocupou a segunda posição no ranking. Também do setor de infraestutura, a concessionária de rodovias CCR ganhou a quarta posição.

Da mesma forma que o Brasil não foi tão penalizado pela crise econômica como outros países, as empresas brasileiras também sofreram menos. De acordo com cálculos da Economática, a mediana da variação do lucro por ação das empresas de capital aberto brasileiras foi positiva em 4,9%, enquanto nos Estados Unidos foi negativa em 13,3%. Dos países da América Latina analisados, além do Brasil, apenas Chile teve resultado positivo, em 0,1%. O México apresentou queda de 9,8%, a Argentina, de -16,3%, e o Peru, de - 16%.

Ao mesmo tempo, na comparação dos índices das bolsas desses países, o Brasil foi um dos mais penalizados. O Ibovespa caiu no ano passado 41,2%, enquanto a bolsa do Chile recuou 22,1%, a do México, 24,2%, a dos Estados Unidos (índice Dow Jones), 33,8%, da Argentina, 49,8%, e do Peru, 59,8%. "O Brasil paga o preço pela sua alta liquidez. Por isso, a queda da Bovespa foi desproporcional e não refletiu o fato de as empresas brasileiras terem sofrido menos que as de outros países", diz Exel.

Se possuir alta liquidez significou em 2008 uma queda maior da bolsa brasileira, para 2009 tem significado uma recuperação mais rápida. Enquanto o Ibovespa subiu do início deste ano até 15 de junho 38,6%, o Dow Jones caiu 1,9%. O índice brasileiro superou o desempenho de todos os outros países analisados, exceto Argentina, cujo índice Merval subiu 53,2%, e Peru, com alta de 91,4%.

A retomada da recuperação na Bolsa brasileira tem acontecido em razão da forte entrada de capital estrangeiro, que acumula no ano um saldo de mais de R$ 10 bilhões. Esse movimento não só sinaliza uma tendência de alta dos papéis como também tem estimulado várias empresas a ensaiarem ofertas de ações. A maior delas promete ser a oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da VisaNet, com previsão de captar R$ 8,7 bilhões, incluindo o exercício dos lotes suplementar e adicional. Se tiver o sucesso esperado, a emissão será uma espécie de reabertura do mercado de capitais para empresas que queiram se capitalizar.

Sustentabilidade e Governança

Mesmo com o abalo da crise internacional, que levou o Ibovespa a perder 41,2% no ano passado, o mercado de capitais tem mostrado que pode ser uma alternativa de capitalização neste segundo semestre. A melhora de perspectiva para a Bolsa deve garantir a continuidade do processo de aumento de transparência das empresas, refletido na busca por boas práticas de governança corporativa e de sustentabilidade. A transparência na gestão e a preocupação com a perenidade das operações passaram a ser uma exigência dos acionistas e de toda a sociedade.

No Novo Mercado as companhias se comprometem, voluntariamente, a garantir práticas de governança corporativa adicionais em relação ao que é exigido pela legislação, o que dá mais segurança ao investidor. A questão ambiental também ganha cada vez mais peso. Empresas comprometidas com a sustentabilidade não deixaram de investir em ações para melhoria de processos e redução da emissão de gases causadores do efeito estufa.

Por valorizar iniciativas nestes dois campos, desde 2006 a Agência Estado criou duas novas premiações: o Destaque Novo Mercado e o Destaque Sustentabilidade. No primeiro, é reconhecida a empresa que está neste segmento especial da Bovespa e que tenha proporcionado o melhor retorno ao acionista em 2008. No segundo, é apontada a companhia da carteira do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) que também tenha garantido o melhor retorno. Nos dois casos, para se chegar à melhor rentabilidade, foram adotados os mesmos sete critérios do prêmio Destaque AE Empresas. A Natura, primeira colocada do ranking, também foi a vencedora destes dois prêmios, por estar no Novo Mercado e por fazer parte do ISE.

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