16/06/2009
Entre programas de estímulo por parte dos governos, estão benefícios a projetos voltados
para o meio-ambiente
Londres - Demissões em massa, falências, cortes de investimentos, dividendos e salários. A recessão mais grave desde a Segunda Guerra Mundial provocou uma verdadeira tempestade sobre o setor corporativo da Europa.
Ao contrário do Brasil, aonde a crise só chegou ao final de 2008, as empresas do velho continente enfrentam há quase dois anos os efeitos da forte retração da demanda. Agora um processo de estabilização começa a ser desenhado. A perspectiva, no entanto, é de uma retomada lenta, diante do elevado desemprego resultante da turbulência.
O maior baque foi sentido nos setores financeiro e imobiliário da Europa. Os bancos estavam extremamente expostos aos ativos tóxicos norte-americanos e registraram prejuízos bilionários no ano passado. Pesos pesados, como HSBC, UBS, Credit Suisse e Deutsche Bank, viram seus balanços tingidos de vermelho.
Nas situações mais graves, diversos governos foram obrigados a nacionalizar bancos, caso do Fortis, na Bélgica; do Hypo Real State, na Alemanha; e do Lloyds, no Reino Unido.
Como o crédito secou, explodiu a bolha imobiliária que durante quase uma década alimentou principalmente as economias do Reino Unido, Irlanda e Espanha. Os preços dos imóveis desabaram e o freio no segmento resultou na maior falência da história espanhola, da imobiliária Martinsa Fadesa, que não conseguiu arcar com a dívida de 5,2 bilhões de euros.
Os problemas acabaram contaminando todos os segmentos da economia. Até meados do ano passado, as commodities pareciam imbatíveis, na onda do dólar desvalorizado. Mas a reversão abrupta da tendência atingiu em cheio as empresas do setor, obrigadas a rever estratégias e reduzir investimentos.
O caso da Anglo American evidencia bem a mudança drástica sofrida pelas companhias. No pico do ciclo das commodities, a mineradora comprou os ativos da Minas-Rio no Brasil das mãos do empresário Eike Batista. Meses depois, foi obrigada a segurar investimentos e a cancelar o pagamento de dividendos deste ano.
Os planos mais comedidos permeiam o setor corporativo no Reino Unido. Uma pesquisa da consultoria Roland Berger mostrou que 60% das empresas britânicas estão adiando em pelo menos dois anos os projetos de expansão internacional.
O setor de transportes foi igualmente abatido pela crise. Além da acentuada retração nas vendas de veículos, o segmento automobilístico europeu ainda sofre com as consequências da concordata da norte-americana GM. A companhia é responsável por cerca de 50 mil empregos na Europa, metade na Alemanha.
As empresas aéreas também enfrentam a forte diminuição da demanda e, com as restrições de crédito, tiveram de reduzir ou cancelar encomendas. A Paris Air Show, realizada nesta semana, foi marcada pelo movimento fraco do setor.
Até mesmo os segmentos tradicionalmente mais defensivos mostraram que não estão imunes à crise. No ramo das telecomunicações, a British Telecom anunciou a demissão de 30 mil funcionários e o corte de dividendos, depois de um prejuízo bilionário no ano passado.
Na área de varejo e serviços, muitas empresas tiveram de fechar as portas. Pesquisa da PricewaterhouseCoopers apontou que sete varejistas foram ao colapso por dia útil no Reino Unido no primeiro trimestre de 2009.
O grupo de turismo e comércio alemão Arcandor se declarou insolvente na semana passada, colocando 43 mil empregos em risco.
Nesse cenário, trabalhadores começaram a aceitar não apenas o congelamento como também a redução de salários, como forma de preservar seus postos.
Depois de tantas notícias negativas, agora os analistas contam com os bilionários pacotes anunciados pelos governos para a recuperação dos setores. Uma das principais apostas recai sobre a área de energia limpa, que canalizará boa parte dos recursos públicos.
Dentro dos programas de estímulos, países como a França, Espanha e Reino Unido lançaram iniciativas para beneficiar os projetos voltados para o meio-ambiente, como a produção de energia eólica e solar.
As políticas de desaperto monetário colocadas em prática pelo Banco da Inglaterra e pelo Banco Central Europeu estão provocando uma gradual retomada do crédito, fator necessário para que as empresas voltem a captar recursos.
Os economistas alertam, no entanto, que a recuperação da Europa tende a ser lenta. É fato que os indicadores de atividade pararam de piorar, mas o desemprego de 9,2% na zona do euro e de 6,7% no Reino Unido é considerado hoje o principal obstáculo para uma retomada acelerada.