12/06/2009

Redução de estoques melhora perspectiva para setor de alimentos

Embora o consumo interno tenha se mantido, retração do mercado externo levou à queda de 20% na produção de frangos à exportação e ociosidade nos frigoríficos

Por Tatiana Freitas

Depois de o primeiro trimestre deste ano ter sido marcado por uma forte retração na demanda internacional por carnes, causada pela crise no mercado externo, a expectativa é que o setor de alimentos passe por uma recuperação no segundo semestre. O aperto de crédito ocasionado pela crise internacional fez com que os importadores optassem por desovar seus estoques e, como consequência, limitassem as compras. Passada a fase mais aguda da crise e com os estoques atingindo baixos níveis, as vendas externas, em volume, começaram a apresentar recuperação no segundo trimestre. Contudo, esperase que uma retomada de demanda e de preços mais consistente ocorra apenas na segunda metade do ano.

Enquanto o mercado externo foi o principal responsável pela desaceleração no nível de atividade da indústria de alimentos, provocando uma queda de 20% na produção de frango destinada às exportações no primeiro trimestre e altos níveis de ociosidade nos frigoríficos, o mercado interno continuou aquecido no início deste ano. Devido à baixa elasticidade do consumo de alimentos, as indústrias não identificaram queda no volume de vendas no Brasil. Em casos isolados, afirmam especialistas, é possível que tenha ocorrido migração de consumo de produtos mais caros, como a carne bovina, para proteínas mais baratas, como o frango.

Até mesmo em itens menos essenciais para os hábitos alimentares, como a cerveja, o consumo permaneceu inalterado no País durante o período mais agudo da crise. O baixo tíquete médio do produto contribui para evitar mudanças bruscas no perfil de consumo, além do clima favorável para o consumo de cerveja entre o final do ano passado e o início deste. O comportamento recente do mercado mostrou que o consumidor está dando espaço, inclusive, para aumento de preço.

Com as margens de lucro ameaçadas pelo novo modelo de tributação imposto ao setor em janeiro, a AmBev aumentou o preço de suas cervejas em novembro e dezembro do ano passado. A primeira reação do consumidor foi a migração para outras marcas, resultando em perda temporária de participação de mercado. Porém, à medida que as demais fabricantes seguiram a AmBev no reajuste de preços, a líder de mercado foi recuperando market share e, em abril, retornou à fatia de outubro, ou seja, antes dos reajustes.

Apesar de apontar o mercado brasileiro como o mais resistente à crise econômica até o momento, a Ambev entende que o ambiente de incertezas ainda pode impactar os volumes da indústria. Quanto ao esempenho da empresa fora do País, o primeiro trimestre foi marcado por queda nas vendas. E não há expectativa de recuperação significativa em breve. A tendência é de que a gigante de bebidas continue trabalhando intensamente para reduzir custos e despesas, a fim de manter a rentabilidade em todos os mercados onde atua.

Gripe suína

No caso das carnes, as perspectivas positivas para a recuperação da demanda no segundo semestre foram ameaçadas pelo surgimento da influenza A (H1N1), que ficou conhecida como "gripe suína". Apesar das garantias da Organização Mundial da Saúde (OMS), Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e de entidades representativas de produtores de que o consumo de carne de porco não traz risco de contaminação, a reação imediata de alguns compradores foi a de promover um embargo às importações de suínos, especialmente dos países que registraram os primeiros casos da doença (México e Estados Unidos).

No mercado interno, a Associação Brasileira da Indústria Exportadora de Carne Suína (Abipecs) não viu a possibilidade de queda no consumo de carne de porco. Quanto ao externo, passado o susto, a avaliação é de que a tendência será de retorno à normalidade do fluxo comercial. Mas observadores fazem uma ressalva: o aparecimento da doença pode contribuir para a imposição de barreiras não tarifárias.

É consenso entre especialistas em comércio exterior que, em tempos de crise, as nações tendem a se fechar em suas relações comerciais, a fim de proteger a produção local e, por consequência, os empregos dentro de seu território. Como a adoção de tarifas de importação é acompanhada de perto pela Organização Mundial do Comércio (OMC), sob a possibilidade de aplicação de penalidade, o mais provável é que a "proteção" dos mercados locais ocorra por meio da adoção de barreiras não tarifárias.

Considerando que o Brasil é um dos principais exportadores mundiais de produtos agrícolas - e em muitos segmentos o mais competitivo -, é possível que as empresas do País sejam alvo de tal prática.

Brasil Foods

Independente do rumo que a indústria de alimentos tomar no segundo semestre, o ano de 2009 será um dos mais marcantes para o setor no País, devido ao surgimento de uma nova gigante global, com origem brasileira e fome de lutar pelo espaço de outros gigantes já consolidados, como a norte-americana Tyson.

A criação da BRF Brasil Foods, a partir da fusão entre Sadia e Perdigão, deve trazer mudanças em todos os aspectos, desde o relacionamento entre indústria, varejo e fornecedores ao desenho do setor. No mercado doméstico, é possível que a união entre essas duas empresas estimule uma nova onda de consolidação, não só no mercado de aves mas também entre os frigoríficos, já que as empresas de alimentos mostram-se cada vez mais diversificadas. Apesar de o elevado nível de capacidade ociosa da indústria de carne bovina não incentivar a compra de unidades, há quem aposte que o menor preço dos ativos atue como fator de estímulo ao movimento de consolidação.

Para Sadia e Perdigão, a expectativa é de que os efeitos da fusão comecem a ser percebidos a partir do quarto trimestre de 2009, já que a reorganização societária está prevista para ocorrer no terceiro trimestre e a unificação operacional está condicionada à aprovação dos órgãos de defesa da concorrência. Em ganhos de sinergia e reflexos para os resultados operacionais, analistas de mercado não têm demonstrado otimismo e preveem, ainda para 2010, impactos limitados.

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