
Receita em dólar enfraquecido e custo em real forte tendem a reduzir margens da indústria nacional, já pressionada pelo desequilíbrio entre oferta e demanda
Por Stella Fontes
O agravamento da crise financeira mundial, a partir de setembro de 2008, acabou por antecipar o já esperado ciclo de baixa da indústria petroquímica, que encerrou o ano sem muitos motivos para comemorar. Preços médios elevados do petróleo, do qual deriva a principal matéria-prima utilizada pelas petroquímicas brasileiras, a nafta, e quedas consecutivas na demanda, em meio à deterioração da economia global, pressionaram as margens da indústria nacional, que viu seus resultados minguarem em 2008.
Mesma trajetória deve persistir em 2009, porém com alguns ingredientes distintos: a demanda permanece retraída, o dólar se enfraquece e leva ao descasamento entre receitas (dolarizadas) e custos (a maior parte em moeda local) e a oferta mantém crescimento superior à demanda, pressionando os já deprimidos preços das resinas termoplásticas.
O início do ciclo de baixa da indústria petroquímica estava previsto para o biênio 2009-2010, quando entram em operação grandes unidades produtoras de eteno (insumo básico petroquímico) e de resinas no Oriente Médio, região conhecida pelo custo altamente competitivo da matéria-prima. Como o setor petroquímico opera em larga escala, as novas capacidades não entram gradualmente no mercado e sim em grande quantidade. Esse aumento de produção em "degraus", como é conhecido, provoca naturalmente um descompasso pontual na relação oferta e demanda.
Em cenário de recessão econômica, esse impacto é mais forte. Assim, desde o ano passado começou a se desenhar um novo cenário de demanda para o setor petroquímico, mais contraído do que o inicialmente previsto, o que deve resultar em compressão adicional na rentabilidade das companhias brasileiras. Soma-se a isso a concorrência dos produtos transformados de origem asiática, que há algum tempo preocupa as empresas nacionais.
Para 2009, uma das raras boas notícias para o setor deve vir dos preços do petróleo, que, na média, tendem a ficar abaixo dos verificados no ano passado. No entanto, esse alívio nos custos com matéria-prima deve ser anulado pelo dólar e pela redução dos volumes comercializados. Além disso, o setor volta a conviver de perto com uma preocupação antiga: a possibilidade de um acordo de livre comércio com países do Golfo Pérsico, na esteira da proliferação deste tipo de acerto, o que poderia resultar na entrada no mercado brasileiro de resinas a preços ainda mais competitivos.