
Siderúrgicas e mineradoras se adaptam à nova realidade mundial com demanda mais fraca, mas a temporada de redução de preços da cadeia do aço está apenas começando
Por Natalia Gómez
Depois de uma longa temporada de resultados recordes, o setor de siderurgia e mineração passa por profundas mudanças para se adaptar à nova realidade mundial. Nos primeiros meses de 2009, as empresas anunciaram desligamentos de fornos, paradas de minas, demissões e revisão de projetos para evitar a formação de um excedente ainda maior de matéria-prima no mercado. Estima-se que a siderurgia nos Estados Unidos esteja operando com cerca de metade da capacidade produtiva, tamanha a falta de demanda, enquanto no Brasil, seis dos 14 altos fornos tinham sido paralisados até maio. Apesar do forte ajuste de produção, a temporada de reduções de preço do aço e do minério está apenas começando, e deve concentrar as atenções do mercado nos próximos meses.
No setor de aço, os preços no mercado externo já devolveram toda a alta registrada no auge do crescimento, passando de US$ 1,2 mil por tonelada em meados de 2008 para cerca de US$ 450 por tonelada no segundo trimestre deste ano, mas as usinas brasileiras fizeram apenas reduções tímidas no mercado interno no primeiro trimestre. Tomando como referência as três maiores empresas abertas do setor - Usiminas, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e Gerdau - os preços médios caíram somente 5% a 8% no período, mas os especialistas dão como certo que ocorram novas quedas neste ano. Estes ajustes adicionais serão necessários para manter a competitividade do aço brasileiro em relação ao produto importado.
Outro fator importante na definição dos preços do aço será a negociação para fixar o preço do minério de ferro, que está em curso. A cotação é firmada anualmente entre mineradoras e siderúrgicas nos primeiros meses do ano, mas até o início de junho ainda não havia nenhuma definição. Caso a forte queda do minério se confirme, as indústrias consumidoras de aço terão mais um argumento para pressionar as usinas a reduzirem seus preços. Em 2008, foi a valorização de 65% a 70% do minério de ferro, aliada à demanda aquecida, que permitiu o aumento de 50% nos preços do aço no mercado brasileiro. Agora, é a vez dos clientes das usinas exigirem o movimento oposto.
Pressionados pela crise, os dois principais consumidores de aço, o setor automotivo e o de construção civil, devem buscar reduções de custos. No caso da indústria automotiva, que representa quase 30% dos pedidos às siderúrgicas no mercado brasileiro, a previsão é de uma queda de 3,9% nas vendas internas até o final de 2009, segundo a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), que projeta vendas de 2,71 milhões de unidades no ano. Na construção, as projeções de crescimento têm sido constantemente revisadas para baixo desde o acirramento da crise financeira. Até o final de maio, a estimativa do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP) indicava um avanço de 3% a 3,5% para o setor em 2009, abaixo dos 5% previstos pela entidade no final de 2008, quando a crise internacional já estava instalada, e dos 9% previstos no final de 2007.
No que depender das expectativas do mercado, estes setores devem se beneficiar de uma queda expressiva do preço do minério neste ano. A mineradora australiana Rio Tinto fechou no final de maio um reajuste negativo de 33% a 44% com duas siderúrgicas japonesas e uma coreana, mas o mercado espera que os chineses obtenham uma queda ainda maior no preço do insumo. Apesar de ser negativo para as mineradoras, como a brasileira Vale, o recuo dos preços ainda manterá o minério em cotações muito acima da média histórica.