
Atuação dessas instituições visa dar suporte à política econômica do governo federal de estímulo à economia, apoiando setores dependentes de financiamento
Por Ana Paula Ribeiro
Com os grandes bancos privados revendo para baixo suas projeções de crescimento do crédito no ano, as instituições públicas estão em condições mais favoráveis para elevar a participação nesse mercado. Isso já foi visto nos primeiros três meses de 2009 e a tendência deverá ser mantida no segundo semestre.
Do lado público, Caixa Econômica Federal (CEF) e Banco do Brasil (BB) atendem aos apelos do governo federal e elevam suas carteiras de crédito a taxas superiores ao restante do mercado. Na estratégia desses bancos está o suporte às medidas anunciadas pelo Planalto, como o financiamento imobiliário no programa "Minha Casa, Minha Vida", linhas de crédito para a compra de produtos da linha branca com redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e os empréstimos às empresas.
Tantas ações voltadas para o aumento do crédito fazem com que CEF e BB esperem crescimentos de até 30% e 17%, respectivamente, no estoque total de crédito. No primeiro trimestre, essas instituições já tiveram expansões de 11,4% e 7,6% em relação ao total da carteira registrada em dezembro. Isso enquanto o sistema financeiro cresceu apenas 1,1% na mesma base de comparação.
Dados do BC mostram que as instituições públicas foram responsáveis em abril por 37,8% do total de crédito no País, acima da participação que detinham há 12 meses, que era de aproximadamente 34,3%. Já as instituições privadas, incluindo as de pequeno e médio porte, tiveram sua fatia reduzida de 65,7% para 62,2%.
Entre os grandes bancos privados o que se vê é o pé no freio em relação às concessões de crédito. A exigência de entradas maiores para o financiamento de veículos, por exemplo, continua. A manutenção desse tipo de garantia é explicada pelo risco de inadimplência. Bradesco e Itaú Unibanco esperam que os atrasos atinjam o ápice ao final do terceiro trimestre.
E a demanda também não está favorável, já que essas instituições começam a rever suas projeções de crescimento de crédito. É o caso do Bradesco, que crê que a carteira de crédito da instituição crescerá pouco acima de 10% em 2009. No começo de maio, a expectativa era de uma expansão entre 13% e 17%. No caso do Itaú Unibanco, a expansão provavelmente ficará no intervalo de 5% a 10%, ante estimativa anterior que variava de 10% a 15%.
Mesmo que esses bancos reajam, não devem atingir a velocidade dos seus pares públicos neste ano. A expectativa de fato é que a partir do terceiro trimestre ocorra uma maior retomada no crescimento do crédito no Brasil, após um primeiro trimestre fraco. No entanto, apesar da perspectiva de retomada, as instituições privadas mantêm as projeções conservadoras.
Por enquanto, as iniciativas para alavancar o crescimento da carteira estão restritas ao financiamento ao consumo. É nesse segmento que os bancos privados começam a tornar as regras de concessão de crédito menos rígidas, mas apenas em operações em que há algum tipo de garantia. Isso foi visto, por exemplo, no financiamento de veículos, em que todas as grandes instituições privadas fizeram anúncios de alongamento dos prazos nas linhas para a compra de veículos zero quilômetro. Em média, a entrada exigida é de 20% do valor do bem.
Nos bancos médios, a expectativa também é de melhora nos níveis de concessão do crédito a partir do segundo semestre. Esse movimento, se confirmado, irá ocorrer após um final de ano em que essas instituições estavam com dificuldades em acessar recursos e de um primeiro trimestre em que priorizaram o caixa. Passado o período mais crítico, os executivos desse setor apostam no aquecimento da atividade econômica e maior confiança por parte dos consumidores para voltarem a conceder empréstimos.
Enquanto o crédito no sistema financeiro cresceu 1,1% no primeiro trimestre, boa parte das instituições menores atravessou o período contabilizando queda na carteira de crédito. Após ajustes nos produtos ofertados, a expectativa é de melhora nos próximos meses.
Entre os fatores que contribuem para o aumento das concessões de crédito está a captação de depósitos a prazo com garantia especial (DPGE), aqueles que são garantidos pelos recursos do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Iniciado em 1º de abril, os bancos de pequeno e médio porte já captaram cerca de R$ 7 bilhões por meio desse instrumento, de acordo com o estoque registrado na Cetip no início de junho.
A possibilidade de captar no longo prazo, a melhora da confiança do consumidor e a expectativa de aquecimento econômico faz com que essas instituições apostem nas linhas de maior prazo. Como os depósitos com garantia especial são instrumentos de captação de longo prazo, são mais adequados para as operações de financiamento ao consumo, como crédito consignado e para a compra de veículos. O Daycoval, por exemplo, que no acirramento da crise decidiu concentrar a carteira em operações de curto prazo voltadas a pequenas e médias empresas e crédito consignado, já vislumbra a volta de algumas linhas. O crédito direto ao consumidor (CDC) e o financiamento de veículos, que estão em segundo plano desde outubro do ano passado, têm a chance de ganhar espaço no segundo semestre.