Queda do juro dará um empurrão nas vendas do varejo

Com manutenção do poder de compra do consumidor e perspectiva de redução do custo do crédito, crescimento no segundo semestre tende a ser mais consistente

Por Rodrigo Petry



O desempenho das vendas do varejo no primeiro trimestre de 2009 sinaliza que o segmento deve ficar entre os menos afetados pelos efeitos da crise financeira internacional ao longo de 2009. Embora o crescimento acumulado de 3,8% no volume das vendas confirme a desaceleração prevista para o setor na comparação com o ano passado, a cada mês já é observado aumento em relação ao mês imediatamente anterior. Esse desempenho vem sendo garantido, sobretudo, pela estabilização das taxas de emprego, com reflexo no rendimento médio dos trabalhadores, que chegou a crescer 3,2% em abril deste ano frente o mesmo mês de 2008, tendo como resultado a manutenção do poder de compra dos consumidores.

A partir do segundo semestre as taxas de crescimento em relação ao mês anterior devem se mostrar mais consistentes, quando os efeitos da redução da taxa básica de juros (Selic), iniciada em janeiro, começarem a estimular as vendas de produtos de maior valor agregado. Desde o estouro da crise, a comercialização de móveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos e vestuário, baseada no crédito, foi a que mais sofreu. No entanto, a queda da Selic, aliada à medida de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para alguns itens da linha branca, reativou o setor. Entre abril e maio, a indústria deste segmento apresentou alta entre 20% e 25% nas vendas ao varejo.

Esse cenário de retomada, mesmo que gradual das encomendas, acaba contribuindo ainda para a melhoria dos indicadores de confiança do consumidor. A Fundação Getúlio Vargas (FGV) constatou em maio ante abril crescimento na parcela de consumidores que preveem melhora da situação econômica nos próximos meses, de 26,3% para 28%. Ao mesmo tempo, no período, a parcela que projeta piora recuou de 23,5% para 20,6%. Mesmo com o indicador abaixo dos níveis précrise - em setembro do ano passado apontava 110,2 pontos -, entre março e maio foram três subidas consecutivas, levando o índice ao terreno positivo, em 100,5 pontos, indicando tendência de recuperação gradual.

Entre as empresas listadas na Bolsa, os primeiros meses do ano comprovaram a resistência das companhia voltadas ao mercado interno e com produtos de ticket médio mais baixo. A Lojas Americanas, por exemplo, registrou crescimento de 11% nas vendas em unidades com mais de um ano de funcionamento entre janeiro e abril, sobre igual período de 2008. O portfólio da Lojas Americanas, de aproximadamente 60 mil itens, com um preço médio de R$ 35, não sofreu desaceleração nas vendas diante da crise. Outro exemplo foi a Natura, com alta de 26,5% na receita líquida no primeiro trimestre.

No entanto, o segmento do varejo mais resistente à crise é o de supermercados. Nos quatro primeiros meses do ano, o Pão de Açúcar apresentou alta de 9,2% nas vendas em lojas com mais de um ano de funcionamento. Aliás, o setor, que até o início do ano previa crescer 2,5%, já admite que as vendas podem superar a projeção inicial, chegando a algo próximo de 5%. Essa revisão ocorre, sobretudo, graças à evolução de 3,2% no rendimento médio real habitual dos trabalhadores, que atingiu R$ 1,318 mil em abril, sobre igual mês de 2008. Isso demonstra que os efeitos da crise não pioraram, mas sim estabilizaram o mercado de trabalho. No quadrimestre, a taxa de desemprego média foi 8,7%, ante 8,5% de igual período de 2008.

Até mesmo os segmentos que foram os mais afetados pela restrição ao crédito, principal consequência da crise internacional, têm melhores perspectivas a partir do segundo trimestre. Empresas como Lojas Renner, Marisa e Riachuelo sofreram forte desaceleração e queda nas vendas, desde setembro do ano passado. O setor de vestuário teve queda nas vendas de 5,4% no quarto trimestre de 2008 e de 6,6% nos três primeiros meses deste ano. Após o "fundo do poço", segundo relatou a direção da Lojas Renner, a tendência é de recuperação das vendas nos próximos trimestres.

Também entre as categorias mais afetadas pela crise, as vendas de computadores mostraram reação, sempre na comparação com o mês anterior. Após a queda verificada de 12% na comercialização de PCs no mercado brasileiro no primeiro trimestre, para 2,217 milhões de unidades, quando comparado a igual período de 2008, a perspectiva é de que a partir do segundo semestre as vendas voltem a crescer. Para a consultoria International Data Corporation (IDC), entre outubro e dezembro, as vendas podem avançar até 15%, em relação ao mesmo período do ano passado.

Uma das principais razões para uma perspectiva mais positiva em relação às vendas de produtos de maior valor agregado, geralmente financiadas, é a melhoria das condições de crediário. Segundo o Banco Central a média diária de concessões de novas operações de crédito cresceu 1,2% em abril ante março, liderado pelas operações destinadas a pessoas físicas, com alta de 7,6%. Já a taxa de jurosmédia de crédito para pessoa física ao ano foi de 48,8% em abril, ante 50,1% em março, sendo a mais baixa desde maio de 2008.

Diante do cenário de retomada do crédito e da confiança do consumidor, aliado à manutenção da renda em níveis até superiores ao do ano passado, algumas instituições já vem elevando suas projeções para o crescimento do volume das vendas em 2009. Após prever em janeiro que o varejo restrito - que exclui a comercialização de automóveis e materiais de construção - poderia crescer 4,7% neste ano, a MCM Consultores já avalia que o indicador poderá registrar alta de até 8,5%.

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